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sexta-feira, 21 de maio de 2010

7.2 - UMA PERSPECTIVA MARAVILHADA


7.2 - UMA PERSPECTIVA MARAVILHADA

NEUZA MACHADO


O narrador em primeira pessoa pede emprestado o olhar do Criador Literário. O dono do narrar também foi, na infância, habitante daquele lugar de pura maravilha. Viu as árvores, as flores, os caminhos, o povo; conheceu o calor e o frio; partilhou dos hábitos; ouviu as estórias de honradez e bravura, mas adquiriu, posteriormente, outros valores. Ao desenvolver sua longa narrativa, sob a imposição da perspectiva maravilhada, descobre um outro sertão (já pré-anunciado em "São Marcos" e em A Hora e Vez de Augusto Matraga, "obscuro e fechado”, e, ao mesmo tempo, amplo e infinito. Sob a magia da perspectiva maravilhada (o que teoricamente é chamado de plano mítico-substancial) o plenipotenciário do ato de narrar, de origem sertaneja, descobre o lado resplandescente dessa realidade que o faz sonhar, obrigando seu narrador (seu alter ego) a acompanhá-lo em seus devaneios luminosos.


Vejamos um trecho de A Hora e Vez de Augusto Matraga:

“E ele achava muitas coisas bonitas, e tudo era mesmo muito bonito, como são todas as coisas, nos caminhos do sertão.

Parou, para espiar um buraco de tatu, escavado no barranco; para descascar um ananás selvagem, de ouro mouro, com cheiro de presépio; para tirar mel da caixa comprida da abelha borá; para rezar perto de um pau-d'arco florido e de um solene pau-d'óleo, que ambos conservavam, muito de-fresco, os sinais da mão de Deus. E, uma vez, teve de escapar, depressa, para a meia-encosta, e ficou a contemplar, do alto, o caminho, belo como um rio, reboante ao tropel de uma boiada de duas mil cabeças, que rolava para o Itacambira, com a vaqueirama encourada — piquete de cinco na testa, em cada talão sete ou oito, e, atrás, todo um esquadrão de ulanos morenos, cantando cantigas do alto sertão” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).

O narrador aqui obriga seu personagem a apreciar o aspecto exterior do sertão. Submetido à perspectiva dialética, o Artista coloca o sertão da infância diante de seus olhos e, posteriormente, transporta-se, como num passe de mágica, para o interior desse sertão, miniaturizando-se, para acompanhar de perto o olhar do narrador, descobrindo, aos poucos, as riquezas desse temporariamente minúsculo espaço.

“E também fez, um dia, o jerico avançar atrás de um urubu reumático, que claudicava estrada a fora, um pedaço antes de querer voar. E bebia, aparada nas mãos, a água das frias cascatas véus-de-noivas dos morros, que caem com tom de abundância e abandono. Pela primeira vez na sua vida, se extasiou com as pinturas do poente, com os três coqueiros subindo da linha da montanha para se recortarem num fundo alaranjado, onde, na descida do sol, muitas nuvens pegam fogo. E viu voar, do mulungu, vermelho, um tié-piranga, ainda mais vermelho — e o tié-piranga pousou num ramo do barbatimão sem flores, e Nhô Augusto sentiu que o barbatimão todo se alegrava, porque tinha agora um ramo que era de mulungu” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).

De acordo com Bachelard, "todo conhecimento da intimidade das coisas é imediatamente um poema”. O Artista, mediante seu narrador, até então captara apenas as belezas externas do sertão; agora, depara-se com a intimidade desse mesmo sertão. O minúsculo começa a transformar-se em imenso, sob as ordens dessa visita minuciosa do olhar atento.

Nesta fase de transição (fase criativa), o Artista brasileiro observou o lugar da infância poeticamente, questionadoramente, transmutativamente, e viu, nessas minúcias, belezas encantatórias. Esta fase propiciou-lhe o reconhecimento de um plano maravilhoso (no sentido técnico do termo), de "um interior esculpido e colorido com mais prodigalidade do que as mais belas flores” (Bachelard), um mundo submetido à perspectiva maravilhada do narrador sertanejo, agora quase moderno.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

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