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domingo, 27 de março de 2011

ROBERTO DRUMMOND: POR FALAR NA CAÇA ÀS MULHERES

ROBERTO DRUMMOND: POR FALAR NA CAÇA ÀS MULHERES

NEUZA MACHADO

Neste Brasil do Século XXI, mesmo com os brasileiros elegendo uma mulher incomparável para o cargo de Presidenta do Brasil, as mulheres ainda são alvos da violência masculina, pois ainda existem homens que tentam, em vão, exigir direitos de possessão sobre seus corpos e mentes.

Um percentual pequeno, porém significativo, da população masculina não se adequou às mudanças culturais proporcionadas a partir da Revolução Feminina na década de 1960. Por isso, infelizmente, aqui e agora, as brasileiras são surpreendidas por notícias e cenas que, já no tempo da Amélia, não eram consideradas como justas, que sequer podem merecer algum tipo de justificativa.

De um modo geral, o arquétipo Femininainda está ligado a Suavidade, Beleza e Amor Incondicional, sendo as duas primeiras características relacionadas à forma física (do corpo feminino) e ao seu conteúdo (alma feminina); e a terceira característica está relacionada à sobrevivência da espécie humana. São essas três características que até hoje obcecam os Homens, quando o assunto é dominar as mulheres. Nesta semana, em um programa de televisão, o apresentador mostrou aos telespectadores uma cena terrível: um jovem de pouco mais de vinte anos espancando violentamente uma moça na cabine do elevador do edifício onde ela trabalhava. As câmeras filmadoras do elevador registraram todos os momentos da agressão. A moça só não morreu porque os colegas de trabalho a salvaram. Pensem comigo: se não fossem as câmeras de filmagem do elevador, a brutal agressão não seria documentada e a dúvida quanto ao agressor ficaria no ar. Se não houver documentação explícita (como as filmagens), depois de certas brutalidades, os agressores estampam suas caras “inocentes” e, não raro, até as mulheres ficam com pena do “coitadinho” que foi para a cadeia. O fa que, sem as provas que incriminem o homem, a reação mais imediata é imaginar que a mulher fez ou se portou de forma a receber a agressão, ou seja, deixaria de ser a vítima para ser consideradAqui no Brasil, tais atitudes masculinas vêm de longa data. Os anos setenta, por exemplo, registraram uma série de massacres contra as mulheres por seus cônjuges ou namorados. Lembro-me de que, naqueles anos terríveis (havia uma desconfortável Ditadura a nos oprimir), duas jovens senhoras da alta sociedade mineira foram brutalmente assassinadas, uma por seu companheiro do momento e a outra por seu rico marido. Está evidente que os tais casos de violência contra as duas mulheres vieram a público porque ambas eram conhecidas nos meios da alta sociedade brasileira. As violências domésticas contra as mulheres pobres não eram publicadas nos jornais da época. Mas, alguns incomodados escritores do século XX, autores de exemplares narrativas ficcionais, se propuseram a revelar, nas entrelinhas de seus textos, os graves problemas que afetavam alguns patamares da sociedade brasileira de então. Penso que atingido emocionalmente por aqueles brutais acontecimentos (principalmente, em relação às mulheres mineiras já mencionadas, conhecidas em todo o país por intermédio do famoso colunista social daquela época), o escritor Roberto Drummond, enquanto testemunha histórica dos ditos acontecimentos, se contemplou inspirado para escrever o incomodante conto “Por falar na caça às mulheres.

Apreciemos o conto de Roberto Drummond:


POR FALAR NA CAÇA ÀS MULHERES

Roberto Drummond


(O que foi escrito nos muros com grafite, spray e sangue)

Juliana: Sérgio te ama!
(13/12/70)

Juliana: Você é a vida de Sérgio!
(17/12/70)

Feliz Natal, Juliana! Votos de Sérgio!
(24/12/70)

Devo mendigar um olhar, Juliana?
(26/12/70)

Ah, Juliana!
(29/12/70)

Feliz 1971, Juliana!
De todo coração, Sérgio.
(30/12/70)

Para que tanto orgulho, Juliana, se você é pó e pó se tornará?
(7/1/71)

Pelo menos um olhar, Juliana!
(9/1/71)

Juliana: não vá para Cabo Frio!
(11/1/71)

Cabo Frio dá câncer!
(12/1/71, na parte da manhã)

Está dando meningite em Cabo Frio!
(12/1/71, na parte da tarde)

Não vá, Juliana!
(13/1/71)

Volte de Cabo Frio, Juliana!
(15/1/71)

Sem Juliana, Belo Horizonte é um cemitério!
(17/1/71)

Brasil, capital Juliana!
(19/1/71)

Ju: quinze dias em Cabo Frio é demais!
(30/1/71)

Seja bem-vinda a Belo Horizonte, Juliana!
(25/2/71)

Pelo menos responda ao meu bom-dia, Juliana!
(26/2/71)

Juliana: você voltou mais linda de Cabo Frio!
(28/2/71)

Um sorriso, pelo menos, Juliana!
(5/3/71)

Ju: você é o ar que Sérgio respira!
(17/3/71)

Ju: sem você, Sérgio prefere a morte!
(21/3/71, escrito a sangue)

Pense no que está fazendo, Juliana!
(25/3/71, outra vez a sangue)

Ju tem o prazo de dez dias para namorar Sérgio!
(1/4/71)

Se, em dez dias, Ju não namorar Sérgio, ele dá um tiro no ouvido!
(3/4/71)

Faltam nove dias para Sérgio dar um tiro no ouvido!
(15/4/71)

Faltam oito dias para Sérgio dar um tiro no ouvido!
(16/4/71)

Faltam sete dias para Sérgio dar um tiro no ouvido!
(17/4/71)

Faltam seis dias para Sérgio dar um tiro no ouvido!
(18/4/71)

Faltam cinco dias para Sérgio dar um tiro no ouvido!
(19/4/71)

Faltam cinco dias para Sérgio dar um tiro no ouvido!
(20/4/71, pela manhã)

Juliana: você não tem coração?
(20/4/71, de tarde, escrito a sangue)

Faltam três dias para Sérgio dar um tiro no ouvido!
(21/4/71, de manhã)

Sérgio já comprou o revólver!
(21/4/71, de tarde)

Faltam três dias para Sérgio dar um tiro no ouvido!
(22/4/71)

Falta um dia para Sérgio dar um tiro no ouvido!
(23/4/71, pela manhã)

Depois não diga que eu não avisei, Juliana!
(23/4/71, pela tarde)

É hoje, Juliana!
(24/4/71)

Obrigado, Ju, por salvar a vida de Sérgio!
(24/4/71)

Sérgio e Ju estão in love!
(26/4/71)

Sérgio e Ju se amam very much!
(27/4/71)

Sérgio e Ju juram eterno amor!
(9/5/71)

Ju é a alma gêmea de Serjão!
(11/5/71)

Serjão fará Ju feliz por toda a vida!
(15/5/71)


(De uma coluna social, no ano de 1973)

Praza aos céus que este colunista possa ver, ainda nesta bendita e festiva década de 70, que assinala o “Milagre Brasileiro”, uma outra cerimônia tão tocante e tão inesquecível. Saibam todos que a Basílica de Nossa Senhora de Lourdes, régia e lindamente decorada com flores amarelas do campo, foi pequena para caber a verdadeira multidão que se espremeu e se acotovelou em todos os recantos da nave, para assistir ao Casamento do Ano, que uniu pelos sagrados laços do matrimônio dois troncos muito queridos da Tradicional Família Mineira. Refiro-me, vocês já devem saber, ao enlace de Juliana Montenegro, a bela Ju, do clã dos Montenegro, pioneiros da industrialização de Minas, e do jovem empresário e desportista Sérgio Avelar, o Serjão, do clã dos Avelar, pioneiros da fase heróica dos bancos mineiros.

Em meio a empurrões, corres-corres e até mesmo a alguns desmaios, a bela Ju (que, diga-se de passagem, é um lançamento desta coluna, eleita que foi, com todos os merecimentos, Glamour Girl na promoção deste colunista) chegou à igreja com o atraso de quarenta e sete minutos, um recorde, mesmo em se tratando de noivas retardatárias. Aliás, enquanto a bela Ju não chegava, o jovem noivo, Serjão (que é como ele é conhecido nas rodas desportivas), já se postava no altar e exibia, muito orgulhoso, um telegrama de parabéns enviado pelo presidente Médici e dona Scila. E Serjão recordava para os amigos, entre risos (mas sem deixar de olhar para a porta de entrada da nave), que conquistou o coração da bela Ju, logo depois que ela foi eleita Glamour Girl, e quando, ele, Serjão, era membro do Clube dos Gaviões, utilizando-se de um expediente sui generis: escrevia mensagens dirigidas a Ju em todos os muros das vizinhanças do palacete dos Montenegros (que, por sinal, ocupa todo um quarteirão).

Quando, enfim, dissipados os temores e os diz-que-diz sobre o atraso da Noiva do Ano, eis que a bela Ju chegou na limusine negra (que seu próprio pai, o banqueiro-industrial Juracy Montenegro, fez questão de dirigir), e no momento em que ela desceu da limusine, houve um “oh!” de exclamação geral entre a multidão postada diante da Basílica de Lourdes e a multidão não se conteve: aplaudiu. E com toda razão, pois Juliana Campos Montenegro era a própria imagem da beleza e, visivelmente emocionada, parecia prestes a chorar,o que mais realçava a beleza de seu rosto (que o colunista Ibraim Sued elegeu como o mais belo de todo o Brasil).

A muito custo, cercada por agentes de segurança em boa hora contratados, a bela Juliana Montenegro desvencilhou-se da multidão e adentrou à nave da Basílica de Lourdes, pelo braço do emocionado pai, o banqueiro Juracy Montenegro (impecável na sua elegância britânica). Nesse exato momento, o Madrigal Renascentista regido pelo maestro Isaac Karabtschewsky (que veio do Rio especialmente) começou a cantar “Va Pensiero”, de Verdi, tendo como solista a sublime Maria Lúcia Godoy. Então, a Basílica de Nossa Senhora de Lourdes, como que flutuou e era tal a beleza do quadro que os presentes (incluindo vários banqueiros amigos do casal Montenegro) não puderam conter as lágrimas. Não era para menos. Afinal, Juliana Montenegro estava linda de morrer, com um penteado simplesmente maravilhoso assinado pelo cabeleireiro Lauro Ribeiro (que cuida de sua linda cabecinha desde que Ju tinha doze anos) e uma coiffure da internacional Many Catão. E,ademais, quando o Madrigal Renascentista pôs-se a cantar “Va Pensiero” e a voz maviosa de Maria Lúcia Godoy pairou na nave, mais parecia tratar-se (talvez pela própria música “Va Pensiero”, escolhida pela noiva) de uma cerimônia ligada aos destinos da pátria...


(O que foi escrito nos mesmos muros, com grafite, spray, sangue e piche, de 1973 em diante, enquanto Ju e Sérgio pareciam felizes.)

― Abaixo a ditadura!

― Fora Médici!

― Viva a Guerrilha do Araguaia!

― Ouçam a Rádio Tirana!

― Médici assassino!

― Abaixo a tortura!

― O que foi feito do nosso hipódromo?

― Prestigie a Calourada de Medicina!

― Queremos Telê no Atlético!

― Abaixo Iustrich no Atlético!

― Pílulas de Lussen ainda resolvem!

― Anule seu voto!

― Vote em branco contra farsa eleitoral!

― Liquidação é nas Casas Pernambucanas!

― Queremos nosso hipódromo já!

― Viva a maconha!

― LSD!

― Prestigie o Rei do Pão de Queijo!

― Julieta está dando!

― Maurinho é bicha!

― MDB!

― Rock concerto domingo! Campo do Cruzeiro!

― I love The Who!

― Voltem Beatles!

― Vamos viajar, gente!

― Viva a cocaína!

― Viva Chico Buarque!

― Chega de generais!

― Abaixo a ditadura!

― Fora Geisel!

― Poder para os civis!

― AI-5 é nazismo!

―Abaixo o AI-5!

― Abaixo a tortura!

― Herzog: teu sacrifício não será em vão!

― Viva Manoel Fiel!

― MDB: você sabe por quê?

― Vote contra a ditadura! Vote MDB!

― Tome Hepatovis!

― Anistia!

― Queremos anistia já!

― Anistia ampla, geral e irrestrita!

― Abaixo o AI-5!

― Abaixo as multinacionais!

― Chega de generais!

― Queremos eleições diretas!

― Fora Figueiredo!

― Viva o cheiro do povo!

― O ABC é o Brasil!

― Todo apoio à greve do ABC!

― Viva Lula!

― Greve geral amanhã!

― Anistia ampla, geral e irrestrita!

― E os mortos? Quem vai anistiar os mortos?

― Sejam bem-vindos exilados!

― Viva a UNE!

― Bem-vindo Brizola!

― Viva o Cavaleiro da Esperança!

― Arraes fala amanhã: Faculdade de Direito!

― Viva o ABC!

― João Amazonas fala amanhã: Sindicato dos Gráficos!

― Fora militares!

― Abaixo a repressão!

― Viva a greve das professoras!

― Viva a greve do ABC!

― Segunda-feira: greve da Fiat!

― Amanhã: greve da Belgo!

― Viva os operários da Volks!

― Todo apoio à greve dos enfermeiros!

― Segunda-feira: greve geral da construção civil!

-- Viva os peões em greve!

― Cadeia para os assassinos de operários!

― Viva a greve dos lixeiros e garis!

― Terça-feira: greve dos médicos residentes!

― Legalidade para o PCB!

― Todo poder à classe operária!

― Simone canta amanhã no DCE!

― Cadeia para o terror!

― Cadeia para os assassinos do terror!

― Quem jogou a bomba no Riocentro? Até as crianças sabem!

― Cadeia para os terroristas do Riocentro!

― Liberdade!

― Chega de pacote!

― Viva o Gay Power!

― Abaixo a inflação!

― Fora Delfim!

― Queremos liberdade!

― Chega de militares!

― Viva os civis!

― Liberdade!


(Da página de polícia dos jornais num dia qualquer da década de oitenta)

Com três tiros de revólver disparados à queima-roupa, o empresário e desportista Sérgio Avelar matou sua bela mulher Juliana Campos Montenegro Avelar, mais conhecida como Ju, integrante da lista de “Dez Mais” e considerada a dona do rosto mais bonito do Brasil pelo colunista Ibraim Sued. O crime, que envolve duas das mais ricas e conceituadas famílias mineiras, ocorreu na mansão do casal no Alto das Mangabeiras, a apenas alguns quarteirões do palácio residencial do governador Francelino Pereira. O empresário Sérgio Avelar, o Serjão da seleção mineira de vôlei na fase de maior glória, desapareceu após o crime. Toda acena foi presenciada pela menina Andréa, de quatro anos, única filha do casal, que gritava:

― Papai, não mata minha mãe!

Segundo a doméstica Marli de Jesus, que trabalha com o casal desde o casamento, o crime foi precedido de violenta discussão, tendo, a certa altura, a ex-Glamour Girl Juliana Campos Montenegro Avelar gritado:

― Atire logo! (Ainda nos jornais, nos dias seguintes)

Enquanto o empresário Sérgio Avelar continua em destino ignorado (suspeita-se que esteja numa clínica de repouso ou num sítio) e seu advogado Lins Bernardes informa que o assassino está preso de forte depressão nervosa, mas se apresentará às autoridades tão logo o médico que o assiste ache conveniente, a doméstica Marli de Jesus depôs ontem sobre o crime de que foi vítima sua patroa Juliana Montenegro, a bela Ju, e disse que, ultimamente, o casal discutia por um nada.

― Eles brigavam o dia inteiro e dona Juliana, coitada, não tinha paz nem para assistir às telenovelas, o que ela tanto gostava...

Disse ainda Marli de Jesus que o empresário Sérgio Avelar nutria fortes ciúmes da bela Juliana que, segundo Marli, era uma pessoa muito alegre, comunicativa com todos, razão porque era adorada por ela, Marli, mais as duas domésticas Neide e Conceição e pelo caseiro Sebastião Francisco do Nascimento, o Chico Caseiro. Revelou também Marli de Jesus que as discussões do casal se acirraram depois que a bela Juliana resolveu trabalhar, abrindo a Ju Butique, no bairro da Savassi...


(Quatro dias depois, nos jornais)


Em novo depoimento sobre o rumoroso crime que teve como vítima a bela Ju, a doméstica Marli de Jesus revelou na Delegacia de Homicídios, na tarde de ontem, que era freqüente o empresário Sérgio Avelar, bêbado e com uma pinça na mão, interrogar e torturar a menina Andréa, única filha do casal, para saber se a esposa, a bela Ju, tinha conversado com outro homem.

― Muitas vezes ― contou Marli de Jesus ― o empresário Sérgio torturava tanto Andréa com a pinça, levando a pobrezinha a inventar uma história que comprometia sua mãe... (Certo dia nos jornais)

Barbado, óculos escuros, jeans azul, mais parecia um galã de telenovela. Foi assim que o empresário Sérgio Avelar, o Serjão da seleção brasileira de vôlei de 71, que assassinou a esposa Juliana Campos Montenegro Avelar, a bela Ju, com três tiros à queima-roupa, compareceu na tarde de ontem para depor na Delegacia de Homicídios. Ele foi recebido na porta da delegacia aos gritos de “lindo! lindo!” por moças que portavam cartazes com os dizeres “Viva Serjão!”, enquanto as feministas carregavam cartazes onde estava escrito “Quem ama não mata!” e ficavam em silêncio.

Pelo menos uma vez o milionário Sérgio Avelar acenou para as fãs, tendo dado três autógrafos, mas, tão logo o delegado Raul Resende, o doutor Kojac, lhe perguntou se confessava a autoria da morte de sua esposa Juliana Campos Montenegro Avelar, o empresário chorou copiosa e convulsivamente, repetindo seguidamente:

― Deus sabe por que matei, Deus sabe...

Ao começar seu depoimento, os olhos vermelhos de chorar, o empresário Sérgio Avelar declarou que, nos primeiros anos de casado, viveu num verdadeiro paraíso com a esposa Juliana. Viviam, segundo sua expressão, uma eterna lua-de-mel, realizando, de seis em seis meses, viagens ao exterior, tendo percorrido não apenas os Estados Unidos, como toda a Europa e até mesmo a Rússia, pois estiveram em Moscou e Leningrado. Como prêmio a tanta felicidade, nasceu uma filha, que recebeu o nome de Andréa. Mas quando Andréa completou três anos (isso há um ano, exatamente), o empresário começou a notar uma súbita mudança no comportamento da bela Juliana, que, segundo ele, se ligou a artistas, escritores e homossexuais, tendo-se associado a conhecido travesti da cidade, contra sua vontade, para a abertura de uma butique de roupas, a Ju Butique.

Inconformado, o empresário Sérgio Avelar tentou levar a bela Ju a mudar de idéia, argumentando que ela devia viver para o lar e para a filha, que precisava dela, no que não foi atendido. Disse ainda o empresário que a bela Ju chamou-o de machista, usando uma expressão naturalmente aprendida com as novas amizades, quando ele disse que ela não precisava trabalhar e lhe ofereceu uma Mercedes verde, zerinho, em troca do fechamento da butique, proposta que a bela Ju recusou com veemência.

― Nesse dia ― contou o empresário Sérgio Avelar em seu depoimento ― ela não me deixou dormir na mesma cama, como fazíamos desde casados...

Outro ponto de discórdia entre o casal era o fato da bela Ju gostar muito de telenovelas, que o empresário Sérgio Avelar considera nocivas à moral, subversivas e desagregadoras de lares. Lembrou que, durante a novela “Água Viva”, de Gilberto Braga, a bela Ju não conseguia disfarçar o entusiasmo quando aparecia no vídeo a personagem Nélson, vivido pelo ator Reginaldo Farias. A princípio, logo nos primeiros capítulos de “Água Viva”, o empresário Sérgio Avelar julgou que seria uma atração passageira. Mas, com o evoluir da novela, a bela Ju se mostrava mais e mais empolgada com Nélson, ou seja, com o ator Reginaldo Farias, o que gerou acaloradas discussões entre o casal. Conforme chegou a confessar em seu depoimento, o empresário Sérgio Avelar (usando expressões textuais suas) “respirou aliviado quando terminou a novela ‘Água Viva’ ”. E mais aliviado ficou porque, na novela seguinte, “Coração Alado”, de Janete Clair, que a TV Globo apresentou, o ator Reginaldo Farias, o Nélson de “Água Viva”, não desempenhou nenhum papel.

Foi o bastante, por sinal, para a bela Ju pouco se interessar por “Coração Alado”, chegando a hostilizar o ator principal, Tarcísio Meira, chamando-o de canastrão, o que provocava sucessivas discussões, pois o empresário Sérgio Avelar defendia Tarcísio Meira, classificando-o de excelente ator, ao mesmo tempo em que dizia:

― Canastrão é o tal de Reginaldo Farias!

Mas, logo, as discussões cessaram, uma vez que a bela Ju se desinteressou por completo pela novela “Coração Alado”. A paz do casal, no entanto, durou pouco, pois acabada “Coração Alado”, eis que a Rede Globo lançou nova novela das oito, “Baila Comigo”, de Manoel Carlos, com o ator Reginaldo Farias vivendo o papel do médico homeopata Saulo. Foi o bastante para que a bela Ju voltasse a se interessar por novelas, sendo que deixava a butique mais cedo e, após mergulhos na piscina da mansão do casal, os cabelos sexymente molhados, e vestida de maneira provocante (algumas vezes de biquíni) postava-se diante da televisão e não podia esconder o interesse quando a personagem vivida por Reginaldo Farias surgia em cena.

Por mais de uma vez, conforme revelou em seu depoimento, o empresário Sérgio Avelar chegou a conversar com a bela Ju, admoestando-a (a expressão é dele) pelas atitudes inconvenientes e provocantes com o ator Reginaldo Farias, chegando até a proibi-la, sem sucesso, de assistir “Baila Comigo”. Nessas ocasiões a bela Ju dizia:

― Você ficou louco!

Disse o empresário, já no fim de seu depoimento, que na noite que antecedeu à madrugada do crime, teve sério desentendimento com a bela Ju, por causa do ator Reginaldo Farias, já que a ex-Glamour Girl, após nadar na piscina da mansão e com um copo de uísque na mão, foi assistir à novela “Baila Comigo”, numa atitude provocante, inteiramente nua, apenas enrolada numa saída de praia. Nessa ocasião, não resistindo, o empresário Sérgio Avelar, sabendo-se traído em pensamento pela esposa, deu um tiro de revólver no aparelho de televisão, quando aparecia o ator Reginaldo Farias. Já de madrugada, com os nervos muito abalados, o empresário Sérgio Avelar ainda tentou uma reconciliação com a bela Ju, que o afastou, dizendo:

― Você atirou no homem que eu amo!

Diante disso, o empresário Sérgio Avelar não se conteve e em nome de sua honra ferida disparou três tiros à queima-roupa que atingiram mortalmente a bela Ju... (O que nem os muros nem os jornais contaram: o delírio da bela Juliana Montenegro na hora da morte)


No primeiro tiro, sentiu saudade de San Francisco, na Califórnia, mas nunca tinha estado lá, e caiu de joelhos com o primeiro tiro e viu uma imensa rua de uma zona boêmia só com mulheres índias, que estavam bêbadas e vestidas e cantavam um rock.
Thank you, very well
thank you, senhores do Brasil.
Nós somos as mulheres índias do Brasil
peritas em strip-tease
recebemos em dólar
em libra
em franco
e em cruzeiro.
Thank you, very well
ladies and gentlemen
thank you
for the sífilis
thank you
for the gonorréia crônica
thank you (nunca nos esqueceremos)
pela tuberculose
e a lepra
e o sarampo
oh, yeah, thank you, very well
senhores proprietários do Brasil.


No segundo tiro, quis comer outra vez uma ceia que nunca comeu na Cidade do México, e quis se levantar, achando que tudo era um sonho, e outra vez caiu de joelhos, e viu milhares de participantes de um congresso nacional de moças de trottoir do Brasil, era ao longo do calçadão da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, e as participantes tinham de nove a vinte e três anos e havia uma alegria fabricada às custas de bebida e maconha e as moças do trottoir estavam vestidas de virgens, todas de branco, e cantavam um rock:
Thank you, very well
thank you, donos do Brasil.
Nós somos as moças do trottoir
alegramos velhos decrépitos
por qualquer vintém
fazemos os gringos
subirem à parede
por uma migalha de dólar
fingimos estar gozando
mas na hora
no escuro dos quartos
enxergamos nossos pais
que nos chamam de putas
e têm medo do comunismo
ateu e anticristão
e se ajoelham
nos pés dos donos do Brasil.
Oh, thank you, very well
qualquer lixo
da sociedade de consumo nos serve
somos as moças do trottoir
famintas de um pedaço de pão
e carne
e
chegamos em casa
cheirando a gringos e
a velhos decrépitos.
Oh, thank you, very well
thank you
for the prostituição
que é de todo o corpo
e até do coração.


No terceiro tiro, dançou um tango que nunca dançou em Buenos Aires e quis andar de bicicleta, porque achava que era imortal, e flutuou como uma asa delta ou uma garça sobre o estádio do Maracanã lotado de lebres e panteras e coelhinhas e egüinhas e poldrinhas e era época da temporada de caça às mulheres do Brasil e elas cantavam:
Thank you, very well
Thank you, donos do Brasil.
Hoje não somos
as suas coelhinhas
venham nos comer
se vocês forem homens
não somos as lebres
venham nos caçar
se vocês forem homens
não somos as panteras do Brasil
venham nos amar
se vocês são homens
não somos nem as poldrinhas
nem as eguinhas
nem as Amélias do Brasil
hoje somos
uma rebelião
que começa entre as pernas
e acaba no coração...


No quarto tiro, bom, não houve o quarto tiro: ela já estava morta, mas julgava-se viva e ouvia a voz de Amélia, a do samba, falando:
-- Pior, Ju, não é a morte no gatilho, pior é quando nos matam e nos deixam com a sensação de que estamos vivas e que somos vacas parideiras, pior, Ju, é essa morte com tiros silenciosos e que transformam nosso coração num pássaro empalhado que já não canta..


(DRUMMOND, Roberto. “Por falar na caça às mulheres”. In: Quando fui morto em Cuba. 8. ed. São Paulo: Atual, 1994: 68-83)

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